Maelström
[...] Miguel Gullander encontrou destino para a experiência, viagens e as suas estórias na escrita. O transporte público em África - neste caso por iniciativa privada para colmatar outras negligências - é uma boa metáfora da sensação de pertença a uma comunidade / casa temporária. Apanhamos uma hiasse, um candongueiro ou um chapa e, entre o incómodo e a curiosidade, ali nos entregamos à deriva, observamos personagens singulares, comenta-se o mais alargado espectro de assuntos, se desabafam os cansaços e se vomitam os poderes.
Nos oferecemos como mártires para que um qualquer condutor louco ou bêbado nos despeje na curva da estrada para a próxima viagem. Ouvimos um kuduro ensurdecedor ou um funáná com voz de grogue. Sentimos a vida a pulsar.
“Perdido de Volta” é o nome de um destes autocarros do desenrasca, da boa ou má vontade pessoal, com a única lei de que cabe sempre mais um e que, em princípio se os deuses ajudarem, se há-de regressar a casa.
A certa altura o narrador tem um momento explicativo do título: Por mais falta de cumprimento de horário, de rota - por mais desconhecido que seja o caminho - por mais desnorteado que pareça ser o destino, por mais perdido que se esteja, esta carrinha acaba sempre por ir aonde a necessidade exige - acaba sempre por passar onde é preciso. Recolhe quem deve recolher, e até dá, por vezes, uma boleia - e, mesmo que ande perdida na noite, na chuva, nos caminhos sem vivalma, perdida, ela acaba sempre por regressar de volta onde pertence, a casa.
O que é isso de voltar onde se pertence? O que poderá ser casa para um escritor como Miguel Gullander, e tantos jovens deste mundo globalizado, onde as fronteiras são cada vez mais abstracções, nalguns casos, e agressivas em tantos outros, em que circular é condição, necessidade e vontade?
Não há-de ser uma casa-país, com a salada cultural de que é feito (mãe sueca, pai português e os vários países que se têm cruzado com o seu destino - Cabo Verde, Moçambique, Inglaterra, Índia, Angola). Não é uma casa-conforto, porque o Miguel vai para o mato onde não há homens, durante 15 dias à procura da palanca negra e, quando volta, o que vê nas cidades são coisas tontas e sem sentido que as pessoas fazem à procura de conforto.
Miguel Gullander introduz um outro tipo de casa - a casa-maelstrõm. Esta palavra estranha que ecoa ao longo do livro como uma cantilena é um fenómeno “natural” da mitologia viking/nórdica, um vortex gigantesco circular que atinge o fundo do oceano. E, tal como Edgar Allan Poe em A Descida ao maelstrõm, (1841), Gullander descreve a descida colectiva para um cada vez mais fundo maelstrõm que, no caso do protagonista do livro, começa com uma entrevista e um contrato, uma missão de educação, até um inferno interior.
Nunca se sabe onde acaba a sua viagem e a qual casa regressa. Talvez seja uma casa de silêncio que dá lugar às vozes alheias - a escrita. [...]
"Queremos um tsunami!", a voracidade de Miguel Gullander - Marta Lança na sua Buala
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