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Veil Unweil

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"Assim, nesse antigo e maravilhoso poema [Ilíada] aparece já o mal essencial da humanidade, a substituição dos fins pelos meios. Ora a guerra aparece em primeiro plano, ora a procura da riqueza, ora a produção, mas o mal continua o mesmo. Os moralistas vulgares queixam-se de que o homem é arrastado pelo seu interesse pessoal; oxalá fosse isso! O interesse é um princípio de acção egoísta, mas limitado, razoável, que não pode gerar males ilimitados. A lei de todas as actividades que dominam a existência social, é, ao contrário, exceptuando-se o caso das sociedades primitivas, que cada um sacrifique a vida humana, em si mesmo e em outrem, por coisas que não passam de meios de viver. Esse sacrifício reveste-se de diversas formas, mas tudo se resume na questão do poder.  O poder, por definição, não passa de um meio; ou, mais exactamente, possuir um poder consiste simplesmente em possuir meios de acção que ultrapassam a força tão restrita de que um indivíduo dispõe sozinho. Mas a ...

ósculo

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Cristo entregando as Chaves a São Pedro por Pietro Perugino (1481-82) Fresco, 335 x 550 cm Capela Sistina, Vaticano «Aos anciãos, pois, que há entre vós, rogo eu, que sou ancião com eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, não por força, mas espontaneamente segundo a vontade de Deus; nem por torpe ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores sobre os que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando se manifestar o sumo Pastor, recebereis a imarcescível coroa da glória. Semelhantemente vós, os mais moços, sede sujeitos aos mais velhos. E cingi-vos todos de humildade uns para com os outros, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte; lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário,...

Pacific Void

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In this cold place Who will save me? Who will take The place of God tonight? Oh, did I believe Oh, really believe that I could see light That's hopeless and clearer Than dawn I got no life I got no hope I got no will I got nowhere to go I lost my soul I cut my skin I'm so ashamed At how it all began I looked so hard For a savior But then There's nothing left to save I would waste their time I know I've wasted mine 'Cause tonight I'm hopeless And clearer than dawn I got no life I got no hope I got no will I got nowhere to go I lost my soul I cut my skin I see my life At how it all begins I got no life I got no hope You wanted more I got no more to know I couldn't speak I couldn't stand I'm so ashamed At how it all began But I am tired I'm feeling like my skin just holds me wrong And I'm tired I'm tired of all I've done And I'm tired of this prison without walls And ...

Adorable Speach

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«Cruzo-me, ao longo da minha vida, com milhares de corpos; desses milhares posso desejar umas centenas; mas, dessas centenas, amo apenas um. O outro por quem estou apaixonado mostra-me a especialidade do meu desejo.  Tal escolha, tão rigorosa que só contempla o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas tentativas), para que eu encontrasse a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma cuja solução jamais conhecerei: por que razão desejo eu aquele Tal? Por que razão o desejo duradouramente, languidamente? É a ele que desejo por inteiro (uma silhueta, uma forma, um ar)? Ou apenas uma parte desse corpo? E, nesse caso, o que é que tem, neste corpo amado, a vocação de fetiche para mim? Que parcela, talvez incrivelmente ténue, que acidente? O corte de uma unha, um dente...

Foco Eminente

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«No contexto do turismo total, a utopia já não é um lugar estático e imóvel: é a cidade universal, onde se realizou a coincidência entre viver e viajar e onde não existe diferença perceptível entre os residentes da cidade e os seus visitantes. Há um processo de monumentalização levado a cabo pelo turismo e acabamos por olhar a nossa própria cidade com os olhos do turista que a monumentaliza, tal como o alentejano que voltava as costas ao mar e à paisagem que era para ele completamente hostil fala hoje encantado, usando uma designação inventada há algumas décadas pelo turismo, do seu “litoral alentejano”. A crítica do turismo baseada nos direitos dos autóctones vai perder em breve o seu fundamento. A razão do autóctone vai dissolver-se no turismo total. O lugar crítico da mobilização total, o que há hoje de mais parecido a um posto militar em desordem são os aeroportos. Uma personagem trágica do “alegre apocalipse” vienense, Otto Weininger, escreveu num aforismo que de uma es...

kohl pencil

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Vem à Quinta-feira. É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a Guimarães assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar. Vem à Quinta-feira. A seguir, temos ainda a Sexta e talvez me esperes à porta do emprego, e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare de acabar tão depressa. Vem à Quinta-feira. Mas não venhas nesta, vem na próxima. Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê hipótese de irmos a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo para arranjar o cabelo, para arranjar o coração, para elaborar a lista do que me falta fazer contigo. Vem à Quinta-feira e não te demores. Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista (sabes como gosto de pensar em tudo ao mesmo tempo) e af...

Alípio

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o repouso do guerreiro Baía de Guanabara Santa Cruz na fortaleza Está preso Alípio de Freitas Homem de grande firmeza Em Maio de mil setenta Numa casa clandestina Com campanheira e a filha Caiu nas garras da CIA Diz Alípio à nossa gente: "Quero que saibam aí Que no Brasil já morreram Na tortura mais de mil Ao lado dos explorados No combate à opressão Não me importa que me matem Outros amigos virão" Lá no sertão nordestino Terra de tanta pobreza Com Francisco Julião Forma as ligas camponesas Na prisão de Tiradentes Depois da greve da fome Em mais de cinco masmorras Não há tortura que o dome Fascistas da mesma igualha (Ao tempo Carlos Lacerda) Sabei que o povo não falha Seja aqui ou outra terra Em Santa Cruz há um monstro (Só não vê quem não tem vista Deu sete voltas à terra Chamaram-lhe imperialista Baía da Guanabara Santa Cruz na fortaleza Está preso Alípio de Freitas Homem de grande firmeza Zeca Afonso