Macht Frei


[…]
Valadares (surpreendido) – Que se passa? Há algum problema? Três já fazem comissão…
Jerónimo (com serenidade que cobre uma exaltação profunda) – Está uma revolução na rua. Que é que o jornal vai fazer? Quando é que começam a ir originais para dentro?
(Toda a gente se põe de pé, estupefacta. Torres e Cláudia simulam o melhor que podem. De todos os lados rompem exclamações, e as pessoas aproximam-se do centro. Os três tipógrafos estão sereníssimos)
Valadares – O quê? Uma revolução? (Olha para os jornalistas, desconcertado.) Vocês não… Que raio quer isto dizer? Se é brincadeira, fiquem sabendo…
Josefina – É capaz de ser outro boato.
Afonso – Não é boato. É verdade.
Jerónimo, Damião – O que é que o jornal vai fazer?
Valadares – Esperem lá, esperem lá… Deixem-me pensar. Como foi que vocês tiveram conhecimento? Quem foi que lhes disse?
Damião – Soubemos. Quem foi, ou donde foi, não interessa. Não é boato, nem brincadeira. É verdade. E a sério.
Fonseca (aproximando-se mais) – Muito bem. Admitamos que há uma revolução. Que a tipografia tem fontes de informação que nós desconhecemos. Que nós, jornalistas, fomos apanhados em falso, e portanto a tipografia vem aqui dar-nos lições. Admitamos tudo isso. Não se ouvem tiros, não se vêem tropas na rua (aproxima-se da janela), mas há uma revolução. Muito bem. A primeira coisa que seria preciso saber é de que revolução se trata. Alguém sabe? Alguém está informado? (Para os tipógrafos.) Vocês sabem? Estou a ver que não. Ora se há revolução, é contra o Marcelo, ou a favor do Marcelo? É a esquerda que o quer deitar abaixo? Duvido. A esquerda, toda a gente sabe, não tem força. Ou é o golpe da direita? Da direita mais à direita, quero eu dizer… (perde-se um pouco no fio do raciocínio, ou teme que este o leve a conclusões perigosas.) Vocês entram por aqui dentro de rompante, armados em comissão, e perguntam que é que o jornal vai fazer. Sim senhores, bem perguntado. E quem é que responde às minhas perguntas? Vocês respondem?
Valadares (ciumento da intervenção de Fonseca) – Um momento, ó Fonseca, deixa-me tratar do assunto. Que diabo, não te metas. Essas perguntas, ia eu justamente fazê-las. Responda-me a elas, Jerónimo.
Jerónimo – Não tenho nada que responder. Digo que está uma revolução na rua, e, como chefe da Oficina, venho perguntar que é que o jornal faz. O resto é com os senhores jornalistas. Eles é que são pagos para saber as notícias.
Valadares – A tipografia já tem conhecimento?
Jerónimo – Por enquanto, ainda não. Só nós três. Mas quando voltarmos lá para dentro, vamos dizer a todos. Isto não é segredo que se guarde. (pausa.) Responda à pergunta que fizemos, o tempo está a passar-se.
[…]

Excerto do segundo acto d’A Noite – José Saramago (1979) Ed. Caminho pág. 78/81


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