וואַנט פון שאָד
“A América primeiro… A América para os americanos…” Onde é que já ouvimos isto? Os povos têm a memória curta, mas há pelo menos um povo que não pode nem deve esquecer. Esse povo, o povo judeu onde me incluo, não se pode dar a esse luxo porque a factura foi incomensurável. Devíamos lembrar-nos de que os pretensos salvadores só trazem desgraças, que a procura de bodes expiatórios só fomenta a violência, que alimentar os sentimentos de superioridade nacional, religiosa ou de pele favorece o ódio e o ressentimento. E sobretudo, não devíamos esquecer que tratar cada individuo não como tal, mas como parte de um colectivo indistinto, no qual todos são à partida suspeitos ou culpados, para além de iníquo, é perigoso porque leva a que a resposta seja também colectiva, juntando pessoas que à partida nem se identificam com o grupo onde as encerram.
A retórica do “Nunca mais”, mais do que desacreditada, deveria ser substituída pela “Nós lembramo-nos”. Como judeus não podemos esquecer ao que levou a expressão Deutschland über alles – a Alemanha acima de tudo. Não podemos esquecer que fomos colectivamente o bode expiatório e colectivamente designados como o inimigo e causador de todos os males não só da Alemanha, mas do mundo; tudo isso estava já escrito e claro, em 1924, na obra-prima de Hitler – o Mein Kampf, mas ninguém ligou. Não podemos esquecer que quando precisávamos desesperadamente de uma porta aberta, quase todas se fecharam levando ao desfecho que se sabe. Não podemos esquecer que a estrada que pavimentou a tragédia foi a indiferença – hoje tanto mais gritante quando todos vemos, ouvimos e sabemos tudo o que se passa, em directo e no momento.
Esther Mucznik - O homem da melena amarela
Aos navios que regressam
marcados de negra viagem,
aos homens que neles voltam
com cicatrizes no corpo
ou de corpo mutilado,
peço notícias de Espanha.
Às caixas de ferro e vidro,
às ricas mercadorias,
ao cheiro de mofo e peixe,
às pranchas sempre varridas
de uma água sempre irritada,
peço notícias de Espanha.
Às gaivotas que deixaram
pelo ar um risco de gula,
ao sal e ao rumor das conchas,
à espuma fervendo fria,
aos mil objetos do mar,
peço notícias de Espanha.
Ninguém as dá. O silêncio
sobe mil braças e fecha-se
entre as substâncias mais duras.
Hirto silêncio de muro,
de pano abafando boca,
de pedra esmagando ramos,
é seco e sujo silêncio
em que se escuta vazar
como no fundo da mina
um caldo grosso e vermelho.
Não há notícias de Espanha.
Ah, se eu tivesse navio!
Ah, se eu soubesse voar!
Mas tenho apenas meu canto,
e que vale um canto? O poeta,
imóvel dentro do verso,
cansado de vã pergunta,
farto de contemplação,
quisera fazer do poema
não uma flor: uma bomba
e com essa bomba romper
o muro que envolve Espanha.
Carlos Drummond de Andrade
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