Instant Gram



A necessidade de nos imiscuirmos na paisagem, na geografia, no mundo, de impor assim a nossa imagem, de rasgar o tronco de uma árvore com o nosso nome, é prevalecente em todas as culturas e é uma atitude de resistência à morte e à indiferença, ao olvido. Nem sempre as fotografias que tiramos sujam a paisagem com a vaidade, porque não é somente de vaidade que normalmente se trata, há buracos profundos numa atitude destas. Aparecer e ser testemunhado é fundamental para existir, para garantir uma assiduidade no mundo real e virtual, como quem pica o ponto e assim assegura uma presença no trabalho, mas devemos acrescentar que o cenário muda tudo, dá-nos alguma importância e dignidade, amplia a nossa dimensão. Não só existimos, como existimos em lugares imponentes, fazemos parte da mesma paisagem, pisamo-la com a nossa cara, com um sorriso, deixamos pegadas. E, para isso, corremos riscos, os riscos necessários para garantir uma existência que vai além da rotina e da banalidade, que não é só trabalhar das nove às cinco e ir a reuniões de condóminos e desparasitar o gato, pelo contrário, é ter a certeza de que somos parte da grandiosidade do universo, é provar que temos importância, que não servimos para sermos pisados, e, se cairmos, será como a água das cataratas do Niágara.



[...]Não há virtudes simples, isoladas, e em certos contextos o que antes era virtude facilmente se converte em vício. E vice-versa. A vaidade é também uma luta épica contra a efemeridade, contra a morte, e não é de todo um simples defeito de carácter. Face a um destino inelutável, lutar é uma forma de coragem, de não desistência, de resistência. Por mais básica ou simplória que possa parecer uma fotografia com cataratas por trás, revela uma pulsão humana, biológica, trágica e bela, de perpetuação e luta, um sinal de que temos importância, por mais simples que seja a nossa vida ou por mais que sejamos desprezados. Tirar uma fotografia com as cataratas do Niágara poderá ser visto como uma superficialidade vaidosa ou pobreza de espírito, mas é na verdade, na sua essência, a representação da vida, da sua luta pela permanência, a batalha perdida contra o esquecimento, contra o desprezo a que o futuro inevitavelmente nos condenará. E isso é tão importante que se arrisca a vida, aquilo que com esse mesmo gesto se pretende prolongar ou conservar, numa atitude de conquista da paisagem, de ousadia, rasgando-a com as garras da nossa presença, provando que as orientais que caem são uma imagem perfeita da glória de resistir quando sabemos que tudo está perdido.

Jalan Jalan - Afonso Cruz

wittgenstein on egdon heath


There were never strawberries
like the ones we had
that sultry afternoon
sitting on the step
of the open french window
facing each other
your knees held in mine
the blue plates in our laps
the strawberries glistening
in the hot sunlight
we dipped them in sugar
looking at each other
not hurrying the feast
for one to come
the empty plates
laid on the stone together
with the two forks crossed
and I bent towards you
sweet in that air
in my arms
abandoned like a child
from your eager mouth
the taste of strawberries
in my memory
lean back again
let me love you

let the sun beat
on our forgetfulness
one hour of all
the heat intense
and summer lightning
on the Kilpatrick hills

let the storm wash the plates




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