languid effort



na tua origem
está um líquido viscoso
esbranquiçado e sujo
invadindo o ventre de alguém

transtornada de luxúria
e de palavras mágicas
dentro do corpo a sujidade infecciona
e a carne incha como um furúnculo
por longos meses de febre e luta

e um dia a sujidade invade o mundo
nua coberta só de sangue e plasma
aos gritos
sem nada e sem saber nada
sequer uma palavra

uma lâmina afiada confere-te individualidade
lavam-te o corpo põem-te um seio na boca
dão-te um nome
passas então a existir

tendo como futuro breve um deixar de ser
no estômago destes monstros
como não ver aqui o início da música
o início da escrita
o combate
entre a resistência da matéria e a acção do espírito

como é belo e terrível o final do frio



por exemplo um peixe com os seus dentes na faringe
ou mesmo um cavalo magro de tanto apanhar sol na vida
um arraial de vulgaridades e dados científicos enfim

podeis pensar que nada disto importa para uma vida boa
que só o riso e a humidade que se solta do corpo de um outro

mas há peixes que acasalam para sempre
cavalos que nunca morrem

e deus aparece todas as noites
entre as duas palavras que diriges a alguém
por exemplo

A importância do que permanece.



é fácil chegar ao fim da vida
mas leva o seu tempo

deveria ser esta a máxima
inscrita no altar de uma escola de línguas

mas ao invés disso
anotam-se palavras sem serem escritas
cortadas pela metade
por um terço
por um quarto de palavra
imagine-se aqui os bárbaros pilhando cidades
lacerando o gado destruindo livros

não se sabe ainda com precisão se a fala é pior
nem sequer o que seja isso a fala

diz hoje o mundo
com sua fortaleza coroada com a arrogância do presente
que a sua moeda preciosa
não é dúctil nem dourada
apenas brilhante e maleável
preciosa não precisa
as missangas a comunicação

havemos de retornar às árvores
dançando de ramo em ramo
fazendo-nos entender com esforçados risos
alguns paus e pedras nas mãos
e desconhecendo por completo o mistério
que fez de nós sua morada

o belo deus da linguagem




Paulo José Miranda - Exercícios de Humano, Abysmo, 2014


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