Venus Assembly
"...(Que tal a paisagem? Se vieste para ficar, hás-de ter esses mamarrachos diante de ti, toda a vida... Esse, que está por cima do teu lugar, já eu tinha na minha frente há seis anos... Há seis anos ou há oito, Vivi?, já nem sei...)
— Estes quadros, tão pesados, tão escuros, são um tanto ou quanto soturnos para servirem de elemento decorativo num gabinete de trabalho...
... (Um gabinete de trabalho! Ainda está com os olhos tapados, não admira. Oxalá ela não seja do género de... Não sei se pegue hoje nos púcaros, para «fazer ver», ou se... se comece já a... Ela esteve lá fora uns poucos de anos, tem coisas publicadas... Bom, mas, segundo consta, não são da especialidade, ela é de Biológicas. Em todo caso, cá tudo conta, e na nossa santa terrinha, ter estado no estrangeiro é um título de primeira ordem. Bem, por agora, calminha, Vivi. Aguardemos. Porque ao fim e ao cabo, «o que é doce nunca amargou»...)
— De facto, é uma paisagem pouco interessante. E lá para dentro o Museu está todo cheio de mostrengos iguais a estes, pelos corredores...
— Claro, como o Museu está instalado num antigo Convento... Estes quadros vieram de lá, não?
...(Sei lá de onde veio esta cangalhada toda!) — Se quer que lhe diga não sei de onde vieram, mas acho que sim... As colecções farmacológicas sei eu que vieram, parte do Convento, parte da Botica da Casa Real, e parte de outros conventos...
...(Sei lá de onde veio esta cangalhada toda!) — Se quer que lhe diga não sei de onde vieram, mas acho que sim... As colecções farmacológicas sei eu que vieram, parte do Convento, parte da Botica da Casa Real, e parte de outros conventos...
— E gravuras antigas, sobre temas de farmácia e de medicina, também existem no Museu?
— Gravuras antigas? Sim... Estão para aí, no gavetão dum armário qualquer. Pus-lhes os olhos em cima uma vez, por acaso. O Director em tempos chegou a falar em pedir verba ao Estado para organizar um catálogo ilustrado dessas gravuras. Mas isso foi a princípio, quando entrou para o cargo...
— Devia ser um trabalho interessante, o de catalogar essas gravuras. É pena... E o pior ainda é estarem mal acondicionadas, em risco de se estragarem...
...(Que expressão estranha... fez agora esta minha colega! Aquele súbito recuar do pescoço e do queixo... a barbelazinha que pareceu inchar... o lábio de baixo, que avançou... e sobretudo os olhos... turvaram-se, por momentos, enquanto me fitaram...)
— O meu gabinete, em Aubépine, era muito diferente. O meu e o dos outros investigadores. Havia em todos uma nota pessoal, todos nós tínhamos sempre sobre as nossas mesas, ou pelas paredes, retratos, reproduções de quadros bonitos, caricaturas, pequenas recordações... E quanto a conforto, nem se fala...
(Curiosa a ansiedade... dir-se-ia a angústia, quase, que estas palavras parecem ter provocado na minha colega...)
...(Esta esteve lá fora... Que importa?! O que eu queria apenas era que me deixassem em paz. Mas há sempre estas, destas... Não poderem as coisas, à nossa volta, estar sempre quietas! Se houvesse alguma estabilidade, mais não fosse, na minha geração... Poder realizar os meus ricos projectos, conquistar um dia o sossego, a independência, a liberdade... Desde pequena esta ansiedade... "
Assembleia de Mulheres - Natália Nunes (1964)
"E aqui está o termo para onde dirijo esta minha apresentação: é que, em privado, Alexandrina tem feito várias tentativas literárias, logo depois destruídas porque o seu espírito crítico a leva a considerá-las meros tentames, não reveladores de autênticos méritos artísticos. Apesar disso nos últimos tempos aconteceu-lhe levar até ao fim a escrita de um romance.
Apareceu-me há dias com uns poucos de grossos cadernos manuscritos, depositou-os sobre os meus joelhos e exclamou num tom entre o da alegria e o de um quase terror: «Vê isto! Acabei um romance!»
Como eu olhasse para ela sem nenhum espanto, interpelou-me, ansiosa: «Não te admiras? Não se trata de nenhum novo trabalho científico, ouviste? É um romance, um romance, que hoje terminei!»
Respondi-lhe: «Não, não me admiro. Sempre pensei, isso da tua parte seria bem possível.»
Ela, num abatimento: «De facto escrevi esses cinco cadernos. Mas acho tudo um disparate e lamento o tempo perdido.» Riu com amargura irónica e acrescentou: « Agora sou romancista!»
Interrompi-a: «Por que não?»
— Simplesmente porque não sei fazer romances.
— Ora, Alexandrina, um romance, em última análise, como já tem sido dito, é contar uma história.
— Sabes melhor que eu, hoje já não se usa esse tipo de romance. O que é preciso é construir jogos de tempo, usar de habilidades com discursos indirectos livres, alternâncias de narradores, confusão de personagens, sei lá... Ao passo que eu fui escrevendo ao sabor da minha memória, das minhas interpretações, e também das minhas fantasias. E não calculas como tantas vezes, utilizando a educação científica, tive de refrear os meus ímpetos narrativos e, paulatinamente, entregar-me a uma analítica minuciosa, aprofundante, progressiva. Mas agora pergunto a mim própria se poderei apresentar em público este escrito como um romance, uma obra literária?
— Mas quem te irá dizer isso, Alexandrina?"
A Vénus Turbulenta - Natália Nunes (1997)
«Podes imaginar assim o que é a agitação dos átomos no grande vazio, mas sem perderes de vista que uma pequena coisa pode aí representar uma grande e guiar-nos na senda do seu natural conhecimento.»
Lucrécio, De Natura Rerum, Livro 2

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