Drama Symptoms
"Não vai ser fácil esquecer o que está a acontecer. Estamos numa zona de transição. Não só afecta o estilo de vida, como a imaginação. Como Albert Camus descreveu em A Peste, num primeiro momento, a pandemia é experienciada com medo, mas também como euforia, uma excitação sombria que nos mantém juntos. As expectativas são idênticas: um regresso rápido à chamada vida normal. Mas o tempo vai passando e, numa segunda onda pandémica, como a de agora, os laços vão sendo quebrados. Há mais impaciência e depressão. As expectativas vão sendo frustradas. E surge revolta, agressividade, totalitarismos.
Nos últimos dias, no horizonte, surgiu a vacina. Que tanto pode funcionar física e psicologicamente de forma benigna, como agravar a situação actual se não se cumprirem esperanças, entretanto activadas. O mesmo acontece com o mundo digital onde nos temos movimentado. É unânime a ideia de que as nossas relações serão cada vez mais intermediadas pela tecnologia. Talvez. Mas surgirão também vagas de reacção e alternativas. Para muitos o estar continuamente conectado já era percebido como sintoma de ansiedade e isolamento e, agora, é possível que perdure a correspondência, mesmo que de forma inconsciente, entre estar online com a doença e o vírus.
Neste período, o corpo digital ganhou ainda mais protagonismo, mas o corpo analógico foi despertado. Fomos obrigados a recordar que temos um. No futuro que aí vem será que seguiremos assustados com a proximidade ou, ao contrário, estaremos cansados do digital e ansiosos de ternura e sensualidade? Ninguém sabe o que acontecerá. Poderá vingar a ideia do beijo como acto perigoso, sintoma de laços humanos desfeitos, como haver uma explosão libertadora de beijar e ser beijado."
O Beijo - Vítor Belanciano
Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranóia, exibição trágica, não aquela desinibida, que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós.
Os Portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe...
Costuma dizer-se que Portugal é um país tradicionalista. Nada mais falso. A continuidade opera-se ou salvaguarda-se pela inércia ou instinto de conservação social, entre nós como em toda a parte, mas a tradição não é essa continuidade, é a assumpção inovadora do adquirido, o diálogo ou combate no interior dos seus muros, sobretudo uma filiação interior criadora, fenómeno entre todos raro e insólito na cultura portuguesa. É a inserção do alígeno ou alógeno no processo da produção nacional que constitui a norma e institui o seu autor no papel de criador que nós entendemos sempre como invenção do mundo a partir de nada. Do nada que nos anteceda.
De onde procede tão calamitoso comportamento que não é apenas intelectual mas ético? Sem dúvida do divórcio profundo entre a minoria «cultivada», que vive em estado de guerrilha perpétua e só pode exceder a sua vontade de poderio com o recurso dessa efracção em fractura da produção portuguesa sem distância para se poder impor como «interessante», e a massa anónima do povo português que não participa nesse debate.
Labirinto da Saudade, Repensar Portugal (1978) - Eduardo Lourenço
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