Prestidigitation



Afinal o que importa não é a literatura

nem a crítica de arte nem a câmara escura

 

Afinal o que importa não é bem o negócio

nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

 

Afinal o que importa não é ser novo e galante

- ele há tanta maneira de compor uma estante

 

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

e cair verticalmente no vício

 

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola

antes de haver cinema madame blanche e parola



Que afinal o que importa não é haver gente com fome

porque assim como assim ainda há muita gente que come

 

Que afinal o que importa é não ter medo

de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:

Gerente! Este leite está azedo!

 

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo

à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

 

No riso admirável de quem sabe e gosta

ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Pastelaria





Uma corda. Uma garganta.

Duas dores. O Infinito

Um irmão que chora. Uma mãe que canta.

E uma noiva que diz ai que eu grito.


Um soluço uma noite uma aurora

uma mesa -- um suicida esquesito.

Um irmão que sai porta fora

Um menino que compra um apito.


Uma senhoria irritada

Dois odores a gato pingado.

Uma noiva inconformada, coitada.

Uma mala muito bem fechada.

Um quarto de novo alugado.


Uma mãe que sorri. Alguém que ama

um corpo quente que nem quê.

Uma rua cheia de lama.

Uma noiva que sabe porquê.


Uma corda. Uma garganta.




Despe-te de verdades

das grandes primeiro que das pequenas

das tuas antes que de quaisquer outras

abre uma cova e enterra-as

a teu lado

primeiro as que te impuseram eras ainda imbele

e não possuías mácula senão a de um nome estranho

depois as que crescendo penosamente vestiste

a verdade do pão a verdade das lágrimas

pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela

depois as que ganhaste com o teu sémen

onde a manhã ergue um espelho vazio

e uma criança chora entre nuvens e abismos

depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato

quando lhes forneceres a grande recordação

que todos esperam tanto porque a esperam de ti

Nada depois, só tu e o teu silêncio

e veias de coral rasgando-nos os pulsos

Então, meu senhor, poderemos passar

pela planície nua

o teu corpo com nuvens pelos ombros

as minhas mãos cheias de barbas brancas

Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada

mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças

e uma estrada de pedra até ao fim das luzes

e um silêncio de morte à nossa passagem


Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro



Mário Cesariny de Vasconcelos (1923- 2006)

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