Dubro Rebel


Cai o sol nas ramadas.

O sol, esse Van Gogh desumano...

E telas amarelas, calcinadas,

Fremem nos olhos como um desengano.


A cor da vida foi além de mais!

Lume e poeira, sem que o verde possa

Refrescar os craveiros e os tendais

De uma paisagem mais secreta e nossa.


Apenas uma fímbria namorada,

Vermelha e roxa, se desenha ao fundo

O mosto de uma eterna madrugada

Que vem do incêndio refrescar o mundo.


Douro in "Diário I"




Suor, rio, doçura.

(No princípio era o homem ...)

De cachão em cachão,

O mosto vai correndo

No seu leito de pedra.

Correndo e reflectindo

A bifronte paisagem marginal.

Correndo como corre

Um doirado caudal

De sofrimento.

Correndo, sem saber

Se avança ou se recua.

Correndo, sem correr,

O desespero nunca desagua ...




Corre, caudal sagrado,

Na dura gratidão dos homens e dos montes!

Vem de longe e vai longe a tua inquietação...

Corre, magoado,

De cachão em cachão,

A refractar olímpicos socalcos

De doçura

Quente.

E deixa na paisagem calcinada

A imagem desenhada

Dum verso de Frescura

Penitente.


Doiro 


"O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta."

 in "Diário XII"



À proa dum navio de penedos,

A navegar num doce mar de mosto,

Capitão no seu posto

De comando,

S. Leonardo vai sulcando

As ondas

Da eternidade,

Sem pressa de chegar ao seu destino.

Ancorado e feliz no cais humano,

É num antecipado desengano

Que ruma em direcção ao cais divino.


Lá não terá socalcos

Nem vinhedos

Na menina dos olhos deslumbrados;

Doiros desaguados

Serão charcos de luz

Envelhecida;

Rasos, todos os montes

Deixarão prolongar os horizontes

Até onde se extinga a cor da vida.


Por isso, é devagar que se aproxima

Da bem-aventurança.

É lentamente que o rabelo avança

Debaixo dos seus pés de marinheiro.

E cada hora a mais que gasta no caminho

É um sorvo a mais de cheiro

A terra e a rosmaninho!


São Leonardo da Galafura


Miguel Torga (1907-1995)

À espera do CRIVO 

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