Armadilha Semelhante



Certas máquinas são feitas para o esquecimento.

Há dias em que sinto trabalharem em mim

as confusões do relâmpago.

Então coleciono letras, órbitas, radares.

A linha que me liga aos quadris dessa noite imensa

é a mesma que sai da garganta aberta do dia.

Vejo as estrelas desenharem-se em constelações,

sei muitas coisas rápidas, precisas,

por alguns instantes.


Relâmpagos




Sei poucas coisas sei que ler

é uma coreografia

que concentrar-se é distrair-se

sei que primeiro se ama um nome sei

que o que se ama no amor é o nome do amor

sei poucas coisas esqueço rápido as coisas

que sei sei que esquecer é musical

sei que o que aprendi do mar não foi o mar

que só a morte ensina o que ela ensina

sei que é um mundo de medo de vizinhança

de sono de animais de medo

sei que as forças do convívio sobrevivem no tempo

apagando-se porém

sei que a desistência resiste

que esperar é violento

sei que a intimidade é o nome que se dá

a uma infinita distância

sei poucas coisas


O que eu sei?



1

no princípio

toda língua é estrangeira


acerca-se do seu corpo como de uma cidade

até tomá-lo

fazê-lo chamar-se a si mesmo pelos nomes

que lhe dá

pé perna barriga dentes

fazer a língua chamar-se língua

chamar-se a si mesma pelo nome dela

língua

acerca-se até domá-la

para ensinar-lhe uma coreografia sua

que ela, língua, por sua vez

ensina ao pensamento

cantando


estar na língua como numa

casa louca

que obriga ao abrigar


ela pensa o seu sexo

ela pensa o seu coração

abrindo-o


ela é música

e combate


ela fala na sua boca

com a boca dos mortos


ela é a eletricidade

dos cadáveres


daqueles cuja boca ela encheu

antes da terra


ela cria raízes no seu corpo

dela não é possível se livrar


você é livro

dela


e se aprende outra

é contra ela

contra sua memória

excessiva

e em viagem

com ela

que te cobra e cobre

como um mar



2

Ou é um dueto

uma dança

muito antiga


dela você também se acerca

toma as palavras emprestadas

e empresta-lhes também

sua energia

sua coragem ou doçura


e talvez seja mesmo possível

descartá-la

dissolver-se num mar que não o seu 

livrar-se dela

trocá-la por outra

mais nova ou versátil


(meus únicos heróis

são os tradutores)


ou pouco importa a língua

mas o dizer as coisas

que ao serem ditas

extinguem-se

mas com que fulgor


(escrever poemas:

não se contentar com as línguas que se sabe

nem mesmo com as línguas que há)


as línguas são meios

de viagem, são meios

de transporte as palavras:

carrega consigo o camelo o arranha-céu

a baleia

não só a baleia

todas as baleias

não só o amor

todo o amor


Língua



Anotei uma frase num caderno

encontrei-a algum tempo depois

pareceu-me uma boa ideia para um poema

escrevi-o rapidamente

o que é raro

logo depois me ocorreu que a frase anotada no caderno

parecia uma citação

pensei me lembrar que a copiara de um poema

pensei me lembrar que lera o poema numa revista

procurei em todas as revistas

são muitas

não encontrei

pensei: se eu não tivesse me lembrado de que a frase não era minha

ela seria minha?

pensei: se eu me lembrasse onde li todas as frases que escrevi

alguma seria minha?

pensei: é um plágio se ninguém nota?

pensei: devo livrar-me do poema?

pensei: é um poema tão bom assim?

pensei: palavras trocam de pele, tanto roubei por amor, em quantos e quantos

livros já li

histórias sobre nós dois

pensei: nem era um poema tão bom assim


Boa ideia para um poema



Ana Martins Marques

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