efeito dominó
«No neoliberalismo tudo se vende e compra. Por que não a arte? Se não se respeitam os artistas, por que respeitariam suas obras? Os leilões de arte têm a mesma estrutura das Bolsas de Valores e perseguem os mesmos fins, que nada têm a ver com a fruição estética, mas com o valor de mercado.
A aura de mercado passa a ser valor agregado - nela, pendurada, vai a etiqueta com seu preço e formas de pagamento: aceitam-se todos os cartões.
Não só as obras são cobertas com auras mediáticas, mas os próprios artistas, através dos meios de comunicação de massa - quanto mais valorizados por esses meios, maior a aura que os envolve. Tudo tem preço - arte e artistas. Tudo tem seu momento e lugar: auras religiosas, esportivas, comerciais... e auras dos novos tempos.
A Estética do Oprimido, ao propor uma nova forma de se fazer e de se entender a Arte, não pretende anular as anteriores que ainda possam ter valor; não pretende a multiplicação de cópias nem a reprodução da obra, e muito menos a vulgarização do produto artístico. Não queremos oferecer ao povo o acesso à cultura - como se costuma dizer, como se o povo não tivesse sua própria cultura ou não fosse capaz de construí-la. Em diálogo com todas as culturas, queremos estimular a cultura própria dos segmentos oprimidos de cada povo.
Queremos promover a multiplicação dos artistas.
São os artistas, eles próprios, que se multiplicam, não suas obras copiadas. Não se podem fazer cópias de um ser humano - cada um é único e essa é sua aura, ou dela é parte. Cada um é parte de uma classe, gênero, etnia, país ou grupo de oprimidos da mesma opressão. Cada um é um, e é o todo.»
A estética do oprimido - Augusto Boal (2009) Pg.46 CTORio
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