Persecution
Não resplandece em todas a luz brilhante das sciencias; porque eles occupão as aulas, em que não terião lugar, se ellas as frequentassem, pois temos igualdade de almas, e o mesmo direito aos conhecimentos necessários: e o dizerem que as nossas potencias são o refugo das suas, porque não sabemos entender, ajuizar, aprender, e queremos sempre o peior, he sobra de maldade, e insofrível semrazão, quando há sempre nelles mais que reprehender, e nas mulheres muito que louvar, menos naquelas, que muito os atendem, porque eles as arruinão.
Teresa Margarida da Silva e Orta in Aventuras de Diófanes (1752)
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Neste século das luzes, a ciência / Das mulheres, tem fama esclarecida. / Ó pena!... Sendo assaz a efervescência / De seus grandes talentos, tão sabida: / Porque não são chamadas à igualdade / Desta nossa moderna Sociedade? / Talvez que elas também no Parlamento /
Como os grandes varões, sábias, orassem; / E que, soltando as asas do talento, / A descobrir o bem melhor voassem!... / Das nossas precisões conhecimento / Elas tem: pode ser remédio achassem / Aos males que nos cercam: há exemplos / De muitas que acalmaram contratempos.
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Francisco Joaquim Bingre (1763-1856)
in As mulheres, poema heroico e apologético em três cantos: das graças, das armas e das letras
“Quais são os equivalentes / empregos que a nós nos dão / para ficarmos contentes? // Nenhuns;
porque todo o gosto / de um reino se dá a um varão. / Se nos limitais o gosto / ao enfeite, que razão
/ há de lançar-no-lo em rosto?// Se a república nos dera / o mesmo que a vós vos dá, / vossa mulher
vos trouxera / cobertos de tafetá, / de ouros e primavera // Mas se só nos destinastes / os cortejos e
atavios, / sustentai o que criastes, / não busqueis inda desvios / ao pouco que não tirastes.”.
“Que os filósofos fatais/ que na matéria falaram, / em que vos fossem iguais / as mulheres, não acharam / contraditório, jamais. Todos assentam que não / (excepto alguns muiborrachos) / temos real negação, / pois não são fêmeas ou machos / as almas com distinção.”
“De tudo, por consequência, / resulta a vossa maldade,/ e toda a nossa inocência./ Não negarei[s] tal verdade, / se tiverdes consciência.”
Paula da Graça in Bondade das mulheres vindicada e malícia dos homens manifesta (1715)
«É de todos bem conhecido o modo como a conceção desta dupla face da imagem da mulher se projetou na cultura europeia e suas ramificações, conduzindo quer ao endeusamento da mulher, quer ao seu rebaixamento mais vil, situando-a ora na esfera do mito e do divino, ora na esfera do degradante e do sórdido. Em ambos os casos, o acesso a ela deve ser condicionado, pois a sua presença é sempre essencialmente perigosa. Em termos sociais, deve ser mantida à distância, submetida ao silêncio e à total obediência ao homem. Em termos artísticos, quando ela é acessível, é em geral violentamente criticada e, só quando se torna inacessível, pode ser louvada, cantada, amada sem perigo. Assim, temida em geral pela sua perigosidade, na literatura, a mulher dá origem a dois grandes tipos de textos: os de louvor e os de imprecação.»
Ana Hatherly in Petrarquismo e antipetrarquismo na poesia de Gregório de Mattos (2000)
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