Collective Identity

[...] Na sequência do surto inflacionário e da perda de [poder de] compra, vários governos têm caído e a instabilidade política é cada vez mais a norma, com parlamentos fragmentados, legislaturas curtas e dificuldade em formar coligações maioritárias de governo. Isto é um espelho das contradições do sistema, cujos representantes políticos tradicionais, que alternam no poder sem alternar de políticas, merecem cada vez menos confiança das massas depauperadas. Esta insatisfação tem sido efetivamente cavalgada pela extrema-direita, que cresce por toda a parte, afigurando-se até como força de governo em vários locais.

A pandemia poderá ter deixado marcas fortes numa tessitura societal já debilitada, nomeadamente na ainda maior digitalização do social, assim como na forte desconfiança social e nas autoridades (olhe-se para a proliferação de teorias de conspiração neste período). Como documenta Daniel Borges no seu contributo, o desenlace social fortalece o terreno para a extrema-direita. O paralelismo com os anos 30 do século passado é evidente: num momento de enorme instabilidade económica e crise social e política, venceu o fascismo. Evocando Clara Mattei, será que uma renovada vaga de austeridade nos trará de novo o fascismo?

Diminuída a legitimidade política da direita tradicional, o capital vira-se para a ‘nova’ extrema-direita, quer com adesão ideológica, quer com generoso financiamento, como forma de relegitimar o sistema. A extrema-direita permite não só canalizar a frustração para longe da luta social e política, como também manter e aprofundar o regime de acumulação. 

Esta é uma opção absolutamente natural para o capital: depois da globalização, há menos mercados para expandir ou para explorar mão de obra barata (por isso, se querem desproteger imigrantes); depois da austeridade, há pouca margem para desregular mais a legislação laboral ou para baixar mais os custos do trabalho; depois da crise inflacionária, é difícil aumentar ainda mais as margens ou espremer ainda mais o poder de compra, pelo menos sem arriscar um declínio insustentável do consumo privado. Sem surpresas, o capital vira-se para o autoritarismo quando não é possível impor a exploração de forma não-coerciva, qual braço armado da hegemonia.

A guerra cumpre uma função semelhante. Por um lado, ela serve como pretexto para canalizar recursos públicos escassos para o complexo militar-industrial, que se espera poder proporcionar uma recuperação da rendi(ta)bilidade do capital no centro capitalista, procurando repetir os êxitos do keynesianismo militar no pós-II guerra. Já nos vem sendo dito que o regresso da austeridade é inevitável para financiar estes esforços. Por outro lado, a pregação da inevitabilidade da guerra cria condições de aceitação de medidas políticas que em ‘momentos normais’ seriam inaceitáveis. No estado de exceção, a discriminação e a violência são admissíveis, e os direitos, a democracia e a lei são dispensáveis. É a necropolítica ao serviço da exploração.

Vivemos, por todas estas razões, num momento histórico particularmente perigoso e, por isso, especialmente instável e convulso. À medida que se estreita o espaço para estratégias de recuperação da taxa de lucro, aumenta o espaço para a barbárie. A instabilidade, a incerteza e a violência tornam-se elementos do quotidiano. A democracia política, as liberdades, os direitos sociais e laborais serão crescentemente vistos como obstáculos a remover. Só isto permite ao capital resistir, mesmo que temporariamente, ao seu próprio declínio.

Dividir para conquistar? O desenlace social como forma de instabilidade - Daniel Borges

 Anticapitalista #80 – Maio 2025

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