Illegal Alien


[...] Mas as campanhas singram hoje sem recorrer sequer ao expediente folclórico tão ao gosto da extrema-direita e tão passível de servir a toda a população que é o de explicitar o potencial infecto-contagioso dos imigrantes-invasores. Já é suficiente, para assustar as massas, o realce dado ao carácter criminoso da sua ilegalidade, em si mesmo uma patologia, e a mais patológica insanidade de poder ser um praticante do terrorismo. Talvez estejamos, ainda, na curva foucaultiana da disseminação dos instrumentos de controlo; em cada cidadão assustado se esconde um polícia pronto a actuar. 

O que não é dito neste tipo de propaganda, e que todos sabem mas poucos assumem até às últimas consequências, é que os mesmos grandes números que entram pela fronteira e se instalam do lado de cá são precisamente o motor — ou mais precisamente o combustível — da economia contemporânea. A troco de salários baixos, nenhuns sindicatos e total discrição, são eles que permitem que a economia se mantenha, que as grandes companhias lucrem e as pequenas firmas sobrevivam. Na agricultura, na indústria, na construção civil e serviços associados, na distribuição, no apoio ao comércio, nos serviços urbanos, em todo, todo o lado, à superfície ou nos subterrâneos, portas adentro das fábricas ou ao sol nas estradas, em bicicletas distribuindo comida a domicílio, estão os que perfazem estes números.

Estarão em concorrência com os residentes, como se diz? O senso comum, a observação espontânea e os estudos organizados apontam para o contrário. Eles estão onde os da casa não querem estar. Fazem o que estes não querem fazer. Trabalham calados e não protestam nem reivindicam. Garantem os preços baixos e os lucros altos. Ou seja, são um elemento central desta economia, do bem-estar geral, do contentamento médio que não se interroga nem critica. 

Fazer muros altos é uma fantasia destinada a aplacar medos cuja proveniência é outra, e ajuda, também, a distrair de outro tipo de medidas. É uma medida que o passado mostrou ser ineficiente, adequada apenas a um modelo grosseiro de contenção dos corpos em movimento, inspirada por convenções de presença e testemunho que se reportam apenas ao lado visível dos acontecimentos. Mas o lado menos visível dos mesmos é que o seu trânsito é necessário e indispensável para a manutenção de uma máquina que sustenta economia e sociedade — uma economia que garante a redistribuição e simultaneamente a desigualdade, e uma sociedade que a replica na promessa de contentamento pelo consumo democratizado e na crua realidade da assimetria e da exclusão. E, para manter essa máquina, há que contar com essa componente que a lei exclui; há que incorporar, sem reconhecer, o contingente dos que vêm calados, trabalham escondidos, e em instantes podem ser expulsos; há que acender a retórica que os culpabiliza por outros males. E assim se demoniza, num ápice, o illegal alien. [...]



[...] Dessas grandes histórias de violência, do encontro colonial ao tráfico, da escravatura aos trabalhos forçados, à mutilação, sujeição, objectificação e automática exclusão da cidadania não ficaram só as marcas; fica também a percepção de quão longe é possível ir na desumanização de secções inteiras da humanidade para conforto ou cumplicidade de outras que, pelo mesmo processo, à sua volta, desenham os limites do merecimento. Linhas, fronteiras, muros, barreiras, separadores — simbólicos ou reais, de significado ou de território — remanescem como dispositivo separador entre quem é e quem não pode ser; móveis, arbitrárias e artificiais. Tais linhas de separação são apresentadas como naturais, aceitáveis, inescapáveis. 

O horror de alguns media norte-americanos aos illegal aliens — ou, para o efeito, a arrogância europeia perante os «extracomunitários» — não é senão uma actualização literalizada dessa ideia de fronteira. Uma fronteira física que separa os de dentro e os de fora, e porque não mesmo um muro, um muro bem alto e com arame farpado ou uma invasão de scanners em portos aéreos para garantir que os de fora fiquem mesmo fora?

Se este quadro não reproduz a brutalidade da escravidão e do trabalho forçado colonial, em muito é também o seu directo herdeiro. A séculos de hoje, num futuro mais iluminado e livre, embora incerto, poderá olhar-se para o que é hoje presente com o mesmo horror que olhamos para o passado escravocrata. Que sistema é este que, com uma mão faz deslocar trabalho, barato, descartável, dissolúvel, para lugares onde é necessário a fim de garantir padrões de vida, níveis de produção altos, custos baixos e, com a outra mão, demoniza e criminaliza quem é deslocado no processo, tal como ontem se animalizava, infantilizava ou caricaturava o escravizado, empurrando-o para fora da humanidade? [...]

Cristiana Bastos  - O medo dos imigrantes (2009)


Esteve aqui em 1993 estudando "Os montes do Nordeste Algarvio"

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