Shock Waves I
Essa abordagem é muito produtiva, e tem entre os seus méritos o fato de não estigmatizar o populismo. Como é regra nos estudos críticos do populismo, entende-se que os populismos são plurais, e que performances transgressivas podem ser vistas tanto em movimentos emancipatórios quanto em movimentos reacionários. Isso dito, a discussão sobre o caráter transgressivo dos apoiadores de Bolsonaro e das mídias sociais fornece um gancho para apontar limites dessas abordagens. Elas se focam em demasia sobre as performances corporais dos líderes, reduzindo a crise estética a uma questão de estilo (Zicman de Barros, 2023, p. 249). Sozinha, essa perspectiva não dá conta de uma dimensão fundamental do populismo: a sua força mobilizadora. Como Maria Esperanza Casullo (2021) apontou, as performances corporais do líder são sobretudo um instrumento de identificação e mobilização de setores excluídos.
De fato, quando se volta à história da palavra populismo no Brasil, percebe-se que o choque, a crise estética do populismo não era associada apenas aos líderes carismáticos, mas também para se referir aos setores sociais — os ditos “setores populistas” — mobilizados por essas lideranças (Zicman de Barros e Lago, 2022, pp. 52-53). Esse segundo tipo de uso da palavra “populismo” era comum na mídia, mas foi na academia em que foi mais desenvolvido. Hélio Jaguaribe (1954, pp. 139), por exemplo, afirmava que os líderes populistas seriam “vulgares”, mas seu estudo pioneiro sobre o populismo se concentrava na análise desses movimentos como fenômenos de massas. A ideia de massa e conceitos correlatos aparecem em diversas formas na história do pensamento político mundial e brasileiro. Jaguaribe fora influenciado pela tradição heideggeriana, notadamente por José Ortega y Gasset (1929), mas a noção de massa assume espaço importante também no marxismo e na psicanálise.
Apesar das diferenças, em todos os casos a massa se refere a elementos que carecem de representação simbólica. A massa não é um ator político organizado, com projeto e consciência. Ela é marcada por desorganização e marginalização: a massa não se entende e não é entendida como sujeito político. Ela está excluída da ordem simbólica, do espaço das aparências, da política. Essa interpretação foi muito presente no pensamento latino-americano, influenciando Alberto Guerreiro Ramos (1961), Ruy Mauro Marini (1962), Francisco Weffort (2003a [1965], 2003b [1965]), Fernando Henrique Cardoso (1969 [1965]), Celso Furtado (1966), Octavio Ianni (1968), Gino Germani (1945), Torcuato Di Tella (1965), Jorge Abelardo Ramos (1957) e Ernesto Laclau (1960). Apesar das inegáveis diferenças, todos esses pensadores entendiam que as sociedades latino-americanas no século passado eram marcadas por um processo de desenvolvimento anormal — ao menos quando comparado ao modelo europeu ocidental.
Segundo eles, não havia classes sociais bem organizadas na América Latina como havia na Europa. Parte importante do proletariado industrial no continente era composto por um enorme contingente de migrantes do interior que chegavam às grandes cidades e compunham uma nova classe trabalhadora urbana, mas que não tinha histórico de mobilização sindical e luta política. O que imperava eram as dinâmicas de massa: elementos dispersos, desorganizados, desprovidos de consciência de classe. Trabalhadores que até então não tinham voz, que não tinham representação. Submetidos à invisibilização, foi nos movimentos populistas que essas massas encontraram um meio de expressão — e de fato chocaram a sociedade. Considerar a mobilização das massas sem voz em movimentos populistas permite entender mais profundamente a “crise estética” do populismo. Para tanto, é preciso explicar que a definição de estética aqui empregada é aquela de Jacques Rancière.
Voltando à etimologia da palavra, Rancière (2000a, p. 12) define estética como a “partilha do sensível”. A estética diz respeito ao que ele chama de “regimes de visibilidade” — às regras definindo o que se vê e o que não se vê (Rancière 2000b, pp. 30-31; 1995, p. 142). É a partir dessa definição vasta que Rancière poderá afirmar que a política é sempre uma questão de estética (Rancière 2000a, p. 12). Isso ultrapassa o campo das artes, ou das performances de certos líderes. A política é uma questão de estética porque é uma questão de visibilidade, do que pode ou não pode aparecer na esfera pública. Rancière ensina que as disputas de interesses, valores, identidades que para muitos estão na base da política — e a rigor a própria existência de tais interesses, valores, identidades — são no fundo disputas sobre o que pode e o que não pode ser visto. Seguindo Rancière, entende-se a ideia de populismo não apenas como transgressão estilística, mas como transgressão estética.
Para além das performances de líderes malcomportados, o populismo é esteticamente transgressivo quando, ao falar em nome do “povo”, traz para dentro da política elementos que estavam excluídos — o que Rancière (1995, p. 31) chama de “parte dos sem-parte”. A rigor, é possível dizer que o populismo pode até carecer de líderes, mas não pode carecer da mobilização dos invisibilizados. Vê-se aqui que a ideia de crise estética associada ao populismo não diz respeito apenas a um verniz. Por realizar uma transgressão estética, tensionando as regras estéticas que definem a fronteira entre o que pode e o que não pode aparecer na política e incorporar os invisíveis, o populismo transforma as coordenadas pelas quais se percebe a realidade. É por isso que, como Miguel Lago (2021, p. 17) diz, “populismo” é o nome que se dá para aquilo que não se entende. Ele é siderante porque transforma as coordenadas do possível. Nesse sentido, a crise estética é existencial pois leva o sujeito a se confrontar com os limites da forma como costumava interpretar o mundo e o seu lugar nele. A crise é estética, e por isso mesmo é ontológica.
Thomás Zicman de Barros - Populismo, Crise Estética e Massificação: Reflexões sobre a Transgressão no Lulismo e no Bolsonarismo Lua Nova, São Paulo, 122, e122032tz 2024
Ukraine and Russia at War | Reuters
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