The Show Must Go On



Visto a farda e preparo-me para o banho lá fora, subo a curva da colina pelas ruas que se lavam deixando a sua pele de asfalto e cimento emoliente; sigo navegando o céu em duche, admirando os templos de pedra fresca e as áleas nuas contrapondo a instalação apagada de ciprestes e magnólias em riste – tal como o bom velho ginkgo e a companheira túlipo ao lado das gritantes olaias que continuam a desvelar a sua folhagem ao longo do estreito de lojas que nos corrompem. Chego à tabacaria de onde trago a revista que folheio dentro do átrio da esplanada central com café enquanto observo os coloridos pára-chuvas que secam e fecham no cruzamento dos chãos; no delírio da cantoria alegre, noto que as mulheres apressam-se a varrer o tapete de esterco vegetal lentamente arrastado durante a noite pelos passeios.
E depois de enrolar outro, desço até ao campo de batalha que aguarda como terreiro de obras as revoluções que se constroem. Mal sai o sol, tiro o capuz na liberdade e uma senhora olha-me desconfiada para esta calva rabínica; viro para este rasgando em perspectiva prédios translúcidos e os seus frontões floridos, vejo os perfis de quintas e conventos ajardinados e calco as pedunculares mariposas que ainda morrem deixadas pelos carvalhos, bordos e castanheiros da Índia, por onde despontam jovens trevos por entre a erva crescente junto à muralha. Aterro na íngreme avenida tracejada de lineares fascinantes de azáleas, rododendros e margaridas pelas vivendas geminadas; chego a casa e revisito a insónia laboral.


Hino Órfico à Noite 

Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.

Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.

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