The Show Must Go On
Visto a farda e preparo-me para o banho lá fora, subo a curva da colina pelas ruas que se lavam deixando a sua pele de asfalto e cimento emoliente; sigo navegando o céu em duche, admirando os templos de pedra fresca e as áleas nuas contrapondo a instalação apagada de ciprestes e magnólias em riste – tal como o bom velho ginkgo e a companheira túlipo ao lado das gritantes olaias que continuam a desvelar a sua folhagem ao longo do estreito de lojas que nos corrompem. Chego à tabacaria de onde trago a revista que folheio dentro do átrio da esplanada central com café enquanto observo os coloridos pára-chuvas que secam e fecham no cruzamento dos chãos; no delírio da cantoria alegre, noto que as mulheres apressam-se a varrer o tapete de esterco vegetal lentamente arrastado durante a noite pelos passeios.
Hino Órfico à Noite
Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.
Braga revisitada, mas sem legendas...
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