Carnage

«Impressionante sensação de não saber para onde vou.
Sensação de que a saliva se transforma em cinza. Olho a paisagem pelo rectângulo da janela do expresso, o sol desce devagar, os sobreiros enrubescem, a "estrada" é uma ideia que nunca acaba, nada tem a ver com a kilometragem a percorrer ou percorrida. A estrada é uma concepção que não se realiza. Não é um princípio nem fim, é apenas meio, que é sempre o lugar onde me sinto, no meio de alguma estrada_mental.
Sines, ao longe, cercada pela refinaria e petroquímica iluminadas.
Aproxima-me doutro planeta, o mundo parece querer terminar aqui.
O mar sob a lua, um rasgão de prata nocturno coalhado de astros.
Quando o olho do meu terraço na rua do Forte, o mar não passa de uma superfície azul-chumbo, ou azul-etéreo, ou simplesmente não está ali. O mar é uma miragem azul que eu construo diariamente dentro de mim. O mar só existe quando o olho, de resto, só nos sonhos encontro o azul que dele se soltou.



Anoiteceu. A vila está cercada por pipelines, luzes indecifráveis, chaminés gigantescas, máquinas que corroem a terra, traçam acessos rodoviários, fazem tudo o que se lhes depara pelo caminho. É sobretudo durante a noite fechado na minha exígua casa da rua do Forte, que maior consciência adquiro de tudo isto. Dentro de pouco tempo será insuportável viver aqui. O vento e as águas chegarão contaminados. A praia será um areal negro, um pesadelo sem nome, onde morrem as palmeiras que ali plantaram.
Os barcos serão os nossos fantasmas vagueando sobre as águas sujas de óleo, e uma gaivota perder-se-á no veneno da alba. Em mim nunca mais fará claro, nunca mais amanhecerá. Nem será preciso acender qualquer luz de vigia... eu morro com as paisagens.»

Al Berto - Diários (24 de janeiro 1984) in Jornal de Letras 1096



As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes

António José Forte - Uma Faca nos Dentes

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