Τιμόθεος Τίτος

Timothy with his Grandmother Lois or The Prophetess Anna Teaching a Child (c.1650) - Willem Drost

Hipério

E pensar que lá longe

na estrangeira terra,

nesse exílio que dura há tantos anos,

vive aquele Pastor [O Rei, D. Duarte Nuno] que salvaria

estes campos da morte e da ruína

e dos lobos cruéis estas ovelhas!...


Pastor mais luso e nosso

outro se não conhece;

tem puras qualidades que rebrilham

entre as dos guardadores

da honra e da mantença das lavouras.

Ele é bravo e é pobre;

a nossa Língua fala

que um século vivido entre as alheias

jamais fez esquecida;

aprendeu na dureza

e alta dignidade

do pão do seu exílio

a saber como os pobres são honrados

quase só pelo serem,

e como o ventre obeso dos tiranos

do mando ou do dinheiro

é cousa dura e feia.


Se ele um dia viesse

aos nossos lusos prados

acabava-se a dança dos pastores

que são hóspedes caros ou ligeiros

da cabana onde em feno perfumado

se repolteriam todos,

monarcas da desordem

ou da vil tirania.


Oh! a danada dança,

dança desordenada!

Este espicaça o gado e açula os lobos;

esse é honrado e tapa os negros crimes;

aquele engorda e o gado está no fio;

outros querem livrar-se

e fugindo abandonam o rebanho...

Rendeiros todos são, nenhum é dono.

Pois como hão-de estimar a boa terra

quando a trazem de renda e a fatigam?

Um dia abalam - quem lhes faz as contas?

E se acaso um bom velho

de olhos azuis e de alma enamorada [Henrique de Paiva Couceiro]

se dispõe a guardar o gado solto,

os maus zagais do prado

vão e pegam-lhe fogo!


Quando virás um dia,

pastor que sejas dono e não rendeiro,

morador e não hóspede,

bem apegado à terra,

capaz de ter amor,

leal, nunca onzeneiro,

descendente daqueles que guardaram

as queridas ovelhas

sem jamais esfolá-las

nem à fome matá-las

nem à bruta tangê-las?...



Viviano

Amigo, que Pastor venha depressa

à terra sua e nossa

que com tanta mentira se esboroa

e com tão crua fome desfalece;

mas que sempre recorde

que descende dos ínclitos Pastores

que fizeram tão grande a nossa glória

porque amavam a terra

estimando-lhe a gente.

Mas que nunca se esqueça

de que provém do Mestre [O Mestre de Avis, Rei D. João I]

e do Segundo Joane [Rei D. João II].

O primeiro que foi senão o povo

coroado por chefe

e revendo-se todo

na sua própria imagem coroada?

Ó Fernão Lopes, conta

como os ventres ao sol

lá em Aljubarrota pelejavam! -

E Joane, «de fama sempiterna»,

destruiu, para bem desta lavoura,

as moagens que a terra devoravam!...


Que o Pastor que chamamos

assim como eles seja:

que respeite sem quebra

as nossas liberdades,

lembrando-se do verso que falando

Da Lusitana antiga liberdade

nos dá tamanha honra;

que toda a usura açaime

e o trabalho defenda;

que ame a lavoura, donde

um povo inteiro vive;

que não chame às províncias

do Além-mar colónias,

o que já é perdê-las;

[Alusão ao Acto Colonial e ao Colonialismo, a que os integralistas se opunham]

que nunca ao pé consinta

as cortesãs beatas,

os duques descarados,

os condes financeiros,

a fim de que essa corte seja aquela

corte de alto esplendor

onde o chefe da Casa

dos vinte e quatro ofícios

penetre entre brandões que se acenderam

para honras lhe dar de Embaixador!..


Final das Éclogas de Agora (1937) - Afonso Lopes Vieira aqui



[...] Não estamos hoje entregues à exclusividade do teatro de representação. Nem estamos reféns de uma ideia de autoridade mágica como parece apontar a defesa indignada da profissão. Há muitos espetáculos de teatro que não subscrevem a pureza do teatro e que procuram expandir a ideia de representação. Se representação sempre foi apresentação e representatividade, nos palcos contemporâneos artistas trabalham frequentemente com a consciência de que não há magia, mas interpretação, relações de poder, complexidade na representação, contradições políticas, apresentação, fragilidade e vulnerabilidade.

O Teatro, enquanto autoridade e instituição, sempre foi lugar de violência e por isso sempre esteve sujeito a ser violentado. A violência é constitutiva de uma negociação da representação. Talvez por isso na história de arte se contem tantos exemplos de invasões de palcos e cinemas, destruição de obras e ocupação de museus. E a história não vai acabar.


Teatro e Representação - José Maria Vieira Mendes no Público


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