Ostinato Rigore

Obra de Artur Bual na casa Eugénio de Andrade na Póvoa de Atalaia (Fundão)


Vou fazer-te uma confidência, talvez tenha já começado a envelhecer e o desejo, esse cão, ladra-me agora menos à porta. Nunca precisei de frequentar curandeiros da alma para saber como são vastos os campos do delírio. Agora vou sentar-me no jardim, estou cansado, Setembro foi mês de venenosas claridades, mas esta noite, para minha alegria, a terra vai arder comigo. Até ao fim.

Vastos campos

Hei-de aprender um ofício de que goste, há tão poucos, talvez carpinteiro, ou pedreiro. Construiria uma casa neste chão de areia com pedras húmidas, lisas, ou cheias de limos, frias, são tão bonitas, com seus veios cruzando-se, ou afastando-se de costas uns para os outros. Havia de meter-me por esses miúdos caminhos de chibas para ver, ao fim da tarde, chegar os saltimbancos em toda a sua glória, que me apontam as nuvens lentas, muito brancas, afastando-se. 

As nuvens

em Memória doutro Rio (1978)



O meu país sabe às amoras bravas 

no verão. 

Ninguém ignora que não é grande, 

nem inteligente, nem elegante o meu país, 

mas tem esta voz doce 

de quem acorda cedo para cantar nas silvas. 

Raramente falei do meu país, talvez 

nem goste dele, mas quando um amigo 

me traz amoras bravas 

os seus muros parecem-me brancos, 

reparo que também no meu país o céu é azul.


As Amoras

em O outro nome da terra (1988)



Se nunca foste a Hidra no outono

então não sabes

como é branco o branco e azul o azul.

Se nunca ali chegaste com o sol

escorrendo das colinas entre as hastes

da flor encontrada por Ulisses

no próprio inferno - então não sabes

como a terra é o lugar certo

para morrer.


Hidra 

Uma poesia que (me) estremeça por João Teixeira Lopes no Gerador


Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elemental (...)



Não sei quem, nem em que lugar,

mas alguém me deve ter morrido.

Senti essa morte num arrepio da tarde.

Qualquer amigo, um dos vários

que não conheço e só a poesia

sustenta. Talvez a morte fosse

outra: um pequeno réptil

no sol súbito e quente de Março

esmagado por pancada certeira;

um cão atropelado por um bruto

que, ao volante, se julga um deus

de arrabalde, com sucesso garantido

junto de três ou quatro putas de turno.

Talvez a de uma estrela, porque também

elas morrem, também elas morrem.


Arrepio na tarde 

in Os Sulcos da Sede (2001)



Eugénio de Andrade (1923 - 2005)

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Palavra

Átimo Sempre

Herbarium Amoris