Conde Corações

[...] Dos autores que vociferámos, Nietzsche era o mais esbelto. Crescia na paisagem entre as nossas palavras como um bonsai japonês de folhas vermelhas em sangue. O bonsai é uma miniatura que dá a ver as suas raízes, desenvolvendo-se através de troncos recurvados e de um número reduzido de galhos. O objectivo é transmitir, ao mesmo tempo, as ideias de peso e estabilidade. Falávamos de Nietzsche como quem idealiza, de fato, uma miniatura (uma semente, um grão de arroz, um simples livro) que garante que o rei vai nu. Um rei, todos os reis. Talvez por engano, ela disse "réu" em vez de "rei", mas nada podia estar mais certo. O rei representa deus na terra e o réu representa o homem diante de deus no juízo final. Representações que têm o valor do fumo e dos odores que iam saindo pelas chaminés. 

Caminhávamos e víamos, sobre o ondulado das telhas, o ar interrompido por uma nuvem de casulos a sair da torrefação do café e, em baixo, o pavimento levantado nas imediações da sarjeta. O mundo em mutação: observávamos, cheirávamos como bons lobos e sabíamos que tínhamos a memória inteira por revelar. Seria esse o sinal decisivo que associava o przer de estarmos ali, lado a lado, a algo que já sucumbiu mas que está destinado a ser o essencial: a memória é, de fato, a caixa-negra que projeta de cada vez - e sem que nada o faça prever - o seu próprio raio verde.

Um jogo cromático semelhante ao arco-íris suspenso no limiar do oceano, a partir de onde tudo, mas mesmo tudo, pode ser explorado. E ela voltava a falar do homem das três mãos, da contenção dos bonsais e, a certa altura, perguntou-me se eu gostava assim tanto de Kandinsky. Respondi que não, socorrera-me do moscovita alemão apenas para dar um exemplo. Nada mais. Do mesmo modo que um bom adágio põe à prova a capacidade de a mente saborear o fruto da lentidão. [...]

Gnaisse (2015) - Luís Carmelo



“Há 30 anos que gerimos o fenómeno migratório com muros e através de um instrumento que se chama Regulamento de Dublin e continuamos a falar de emergência e de mortes. Isso significa que falhou”, diz. Agora, “é preciso uma visão diferente, é preciso olhar para este fenómeno de uma forma que passa por fazer chegar estas pessoas através de canais regulares, de corredores humanitários”, defende.

A verdade é que também somos capazes do melhor, como há um ano, quando recebemos “cinco milhões de ucranianos num mês”. “Aí a Europa, a grande Europa, finalmente falou como eu quero, com humanidade e hospitalidade, dando a estas pessoas estatuto de refugiado sem terem de pedir asilo, através da directiva sobre a protecção temporária”, lembra. “Abrimos as portas a cinco milhões, mas recusamos fazê-lo a uns milhares – não são mais de 200, 300 mil por ano – e falamos de um problema. Esse problema chama-se racismo”, afirma.

Lembrando os contínuos ciclos de migrações, que levaram milhões de italianos a deixar o seu país, “sacrificando-se” e acabando “por se integrar e por serem aceites”, ajudando, de caminho, “a tornar desenvolvidos e importantes países como a Suíça, os Estados Unidos ou a Austrália”, Bartolo insiste na ignorância dos que falam em “invasão” ou em “substituição étnica”. A imigração, insiste, “contribui para resolver crises demográficas, económicas, sociais”. “É a História que o diz, não é um médico de Lampedusa.”

“É conveniente promover a ideia de invasão. Assustas as pessoas e elas votam em ti porque tu te tornas um salvador, porque as proteges”, diz. “Mas proteges de quê? Destas crianças? Lembras-te daquele menino na Turquia, Alan Kurdi?”, pergunta. “Sabes quantos meninos vi assim? Quantos Alans Kurdis tive nos braços?...”

Sofia Lorena no público

 


Pois foi por Luís Osório : Sei que os Galambas desta vida são importantes mas morreu um dos nossos melhores.

ou Miguel Esteves Cardoso ganhou o seu primeiro prémio e eu estou chocado

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