Novo Normal
«Realisticamente, a marcha da história faz-se sempre de passos atrás e de passos à frente. O meu primeiro embate com isso, quase ingénuo, foi no maio de 68. A certa altura, tudo aquilo tinha mudado de tal maneira o país que parecia que se ia entrar num outro tipo de sociedade. E, de repente, o DeGaulle, a direita, deu um murro na mesa e as coisas rapidamente desmoronaram. O 25 de Abril é mais importante e tem consequências permanentes, mas quando vim, depois do dia 25 de Abril, e se falava de conquistas irreversíveis, pensava que nada é irreversível. Aprendi aí a ter a cabeça nas nuvens mas, pelo menos, um pé no chão.»
Sérgio Godinho no Público a 31 de Agosto
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| Mendelssohn, Lavater and Lessing, in an imaginary portrait by the Jewish artist Moritz Daniel Oppenheim (1856). Collection of the Judah L. Magnes Museum |
No novo normal
Há cidades inteiras
Por onde rasgaram
Invisíveis poeiras
Malignas benignas
Ninguém sabe se sabe
Nem que acaso ou que destino nos cabe
O novo normal
É terreno minado
De acasos
No novo normal
Caem corpos à sorte
Em valas comuns
Num silêncio de morte
Cortado somente
Por soluços distantes
Longe vão os tempos de ser como dantes
No novo normal
Nunca nada vai ser
Nunca igual
Dadas as circunstâncias
Mantenha as distâncias
Respeite os espaços
Controle essas ânsias
De beijos e abraços
Refreie as audácias e as inobservâncias
Escolha bem as audácias
Refreie essas ânsias
De beijos e abraços
Dadas as circunstâncias
Respeite os espaços
Respeite os espaços
No novo normal
Nunca são contas feitas
Acordaste informado
E ignorante te deitas
E amanhã pela manhã
Será que algo mudou
Tudo não passou de um pesadelo fugaz
Uma história do medo
Largada ao ouvido
Em segredo
No novo normal
Há grandes filas de fome
Nomes tão desgastados
Até deixar de ter nome
Até que o medo não tenha
Racionais fundamentos
E seja só um buraco negro no céu
Um horizonte de eventos
Memorial do que
Se viveu

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