Moralia Vindication
“A amizade e a felicidade doméstica são continuamente elogiadas; no entanto, quão pouco de ambas existe no mundo, pois manter desperta a afeição, mesmo nos corações, requer mais cultivo da mente do que supõem as pessoas comuns. Além disso, poucos gostam de ser vistos como realmente são; e um grau de simplicidade e de genuína confiança, que, para observadores desinteressados, quase roçaria a fraqueza, é o encanto, ou melhor, a essência do amor ou da amizade, fazendo reaparecer todos os deliciosos sortilégios da infância.
Para meramente exercitar a sensibilidade, gosto de ver juntas pessoas que nutrem afeição uma pela outra; cada sua mudança de feições me toca e permanece retratada na minha imaginação com indeléveis traços. O gosto da novidade é, no entanto, necessário para despertar as simpatias frouxas que têm sido banais no mundo; assim como é o comportamento factício, falsamente denominado boa educação, para divertir aqueles que, falhos de gosto, confiam continuamente, para o prazer, na animalidade dos seus espíritos, que, não sendo alimentados pela imaginação, inevitavelmente mais cedo se exaurem do que os sentimentos do coração. A amizade é, em geral, sincera no início e dura enquanto houver algo que a ampare; porém, porque tem como apoio habitual um misto de novidade e de vaidade, não admira que caia com a fragilidade dele.”
Mary Wollstonecraft - “Letters written during a short residence in Sweden, Norway, and Denmark” (1796), p. 120-121 Carta XII
“O casamento, cuja denegrida paródia sobrevive numa época que deixou sem fundamento o direito humano do matrimónio, serve hoje, quase sempre, de artimanha para a autoconservação: cada um dos dois ajuramentados atribui ao outro a responsabilidade de todos os males que ele perpetra, enquanto coexistem de um modo, para falar verdade, turvo e lamacento. Casamento decente seria só aquele em que ambos tivessem a sua própria vida independente, sem a fusão que brota da comunidade de interesses constrangida por factores económicos, mas da qual assumiram livremente a responsabilidade recíproca.
O casamento como comunidade de interesses significa irrecusavelmente a degradação dos interessados, e a perfídia desta instituição universal é que ninguém, ainda que soubesse porquê, se pode subtrair a tal degradação. Por isso, poderia, às vezes, chegar-se a pensar que só porque se livraram da perseguição de interesses, os ricos têm reservada a possibilidade de um casamento sem vergonha. Mas esta possibilidade é puramente formal; esses privilegiados são justamente aqueles em que a prossecução do interesse se transformou numa segunda natureza — de outro modo, não teriam afirmado o privilégio.”
Theodor W. Adorno - “Minima Moralia” (1951)
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