Postwar Contention

Jean Piaget (Neuchâtel, 9 de Agosto de 1896 - Genebra, 16 de Setembro de 1980)




“Para começar, Mons. Ricœur disse que a própria noção de coordenação de valores tem um significado e que, por conseguinte, construir uma sabedoria significa pensar; devemos, pois, voltar ao problema “kantiano”: o que é o homem? Saber, fazer e esperar.
Creio que posso acompanhar, do princípio ao fim, o que Ricœur afirma, no sentido de eu nada mais ter querido dizer, quando disse que a filosofia não é um conhecimento, mas uma sabedoria — ou seja, que ela vai para além dele. Existe uma parte de conhecimento, mas, quando dizemos Saber, Fazer, Esperar, há mais do que conhecimento, há uma parte de decisão e há uma parte de compromisso.



A sabedoria é esta mistura de decisão, por um lado, e de conhecimento, por outro, mas de conhecimento indispensável, sem o qual já não seria filosofia, mas sim crença pura e simples, subjectivismo mais ou menos total. Se há filosofia, é claro que há coordenação de algo que é conhecimento, mas não há apenas conhecimento, há mais do que isso. E é porque há mais do que isso — há um elemento de decisão e um elemento de compromisso — que penso já não poder falar-se de conhecimento propriamente dito, pois ser conhecimento significa ser o mesmo conhecimento para todos: não existe senão uma verdade, embora existam muitas sabedorias possíveis. No entanto, desde que haja discordâncias, tornam-se novamente possíveis as contradições entre sistemas e indivíduos. Ora, é só isso que quero dizer, ao dizer que já não estamos no terreno do conhecimento propriamente dito, pois neste terreno é necessária a verificação, sendo daí que resulta a concordância das mentes, que é a consequência da atitude científica.



Um dos meus oponentes objectou, neste preciso ponto, que pode tratar-se de uma questão de aptidão. Nem toda a gente percebe a teoria da relatividade, nem toda a gente percebe microfísica, há quem perceba, mas há quem não. Da mesma forma, existem sistemas filosóficos que não podemos compreender e existem hierarquias possíveis, níveis que não conseguimos atingir. Esta comparação parece-me inquietante, pois, embora eu não entenda as equações da teoria da relatividade (infelizmente, é o meu caso) não as ponho, por isso, em dúvida, nem posso afirmar que não acredito. Posso só dizer que há ali algo que, com mais esforço e aptidão, acaba por se dominar, ou que, por falta de aptidão especial, não se vai atingir. Mas isso não significa que não se acredite. Ao passo que, diante da diversidade de atitudes possíveis em relação ao compromisso, em relação àquilo a que chamam Fazer e Esperar, por oposição a Saber, há algo mais: não se trata apenas de não entendermos, mas de não nos ser possível aderir. (...) Existe uma escolha e esta escolha já não é conhecimento; é neste sentido que, pela minha parte, falo em sabedoria.”

Jean Piaget — Raison présente, n°1, Novembre – Décembre – Janvier 1966. Psychologie & philosophie



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