crimedeter
(...) Espera-se que o membro do Partido não tenha emoções pessoais nem falhas de entusiasmo. Supõe-se que vive num frenesim contínuo de ódio aos inimigos estrangeiros e aos traidores internos, de gozo ante as vitórias e de autodegradação perante o poderio e a sabedoria do Partido. Os descontentamentos produzidos por essa vida oca e insatisfatória são deliberadamente extravasados e dissipados por estratagemas tais como os Dois Minutos de Ódio, e as especulações que poderiam vir a ocasionar uma atitude de cepticismo ou de rebeldia são antecipadamente suprimidas pela disciplina aprendida na infância.
O primeiro e mais simples estágio dessa disciplina, e pelo qual passam até as crianças de tenra idade, chama-se Novilíngua CRIMEDETER. Crimedeter é a faculdade de deter, de paralisar no limiar, como que por instinto, qualquer pensamento perigoso. Inclui a faculdade de não admitir analogias, de não observar erros de lógica, de não compreender os argumentos mais simples e hostis ao Ingsoc e de afastar ou repudiar qualquer sucessão de pensamentos que possa tomar um rumo herético. Crimedeter, em suma, significa estupidez protectora. Mas estupidez não basta. Pelo contrário, a ortodoxia, na sua expressão mais lata, exige, sobre o processo mental do indivíduo, domínio tão completo quanto o de um contorcionista sobre o seu corpo.
Em última análise, a sociedade oceânica repousa na crença de que o Grande Irmão é omnipotente e o Partido infalível. Mas como na realidade nem o Grande Irmão é omnipotente nem o Partido infalível, tem de haver uma extraordinária flexibilidade, de momento para momento, na interpretação dos factos. Neste caso, a palavra-chave é NEGROBRANCO.(...)
George Orwell - 1984 Moraes ED. 1ªEd.1984 Pg. 206/7 Prefácio de José Pacheco Pereira
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