Simulacra Seduction


“Fala-se muito de direito à saúde, de direito ao espaço, de direito à beleza, de direito às férias, de direito ao saber, de direito à cultura. E à medida que tais direitos novos surgem, nascem simultaneamente os Ministérios – da Saúde, dos Lazeres – mas, porque não os da Beleza e Ar Puro? Todos esses factores, que parecem traduzir geral progresso individual e colectivo e que viriam sancionar o direito à instituição, apresentam sentido ambíguo e, de certa maneira, é possível lê-los ao invés: “Não há direito ao espaço senão a partir do momento em que já não existe espaço para todos” e em que o espaço e o silêncio constituem privilégio de uns quantos, à custa dos outros. 



Assim como não existiu “direito de propriedade“ senão a partir do momento em que já não havia terra para toda a gente, também não houve direito ao trabalho a não ser quando o trabalho se tornou, no quadro da divisão do trabalho, uma mercadoria permutável, isto é, que deixou de pertencer pessoalmente aos indivíduos. Pode também lançar-se a pergunta de se “o direito aos lazeres“ não assinalará igualmente a passagem do ócio, como antes acontecera com o trabalho, ao estádio da divisão técnica e social e, por consequência, ao fim dos lazeres.


O aparecimento destes direitos sociais novos, que se agitam como “slogans” e como anúncio democrático da sociedade de abundância, surge como sintoma real da passagem dos elementos mencionados à categoria de sinais distintivos e de privilégios de classe (ou de casta). “O “direito ao ar puro” significa a perda do ar puro como bem natural, a sua passagem ao estatuto de mercadoria e a sua redistribuição social desigualitária”. Seria bom não considerar como progresso social objectivo (a inscrição como “direito” nas tábuas da lei), o que não passa de progresso do sistema capitalista — isto é, de transformação progressiva de todos os valores concretos e naturais em formas produtivas, ou seja, em fontes: 1) de lucro económico; e 2) de privilégio social.”


A Sociedade de Consumo - Jean Baudrillard (1970) 
Tradução de Artur Morão, Edições 70, 2019, 2.ª. edição, pp. 62-63 

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