Madrigal Parasita




“A ideia do vírus parece acelerar a normalização deste paradoxo que é uma comunidade atomizada. O Outro, que sempre serviu para unir comunidades, já não é algo que se distinga de um Nós, como algo exógeno. É, sim, algo que pode estar dentro de nós. Toda a pessoa pode ser o inimigo. A fantasia do papão terrorista trouxe o inimigo para perto de nós, mas o vírus superou-a trazendo-o para dentro de nós. Se o terrorismo já servia para abrir a porta a todo o tipo de aparatos securitários e de vigilância, imagine-se o que nos traz o medo de ter que enfrentar um inimigo desconhecido e invisível que afecta todas as pessoas sem excepção, colocando, por isso, todas do mesmo lado. É um inimigo que não suscita qualquer possibilidade de simpatia, condescendência, ou compreensão. Não é mais uma entidade com interesses específicos que está ameaçada - uma nação, uma religião, um ideal -, são todas as pessoas enquanto espécie.



Assim nos querem fazer crer. Talvez para que passemos a acreditar que estamos de facto «todos no mesmo barco». Mas não estamos. Acabo como comecei: os desastres naturais, ou todos os cenários que possamos imaginar que o fim assumirá, há muito que deixaram de ser naturais. Tais desastres são tão naturais quanto sociais. E o mesmo se pode dizer da forma como enquanto espécie nos impusemos sobre o mundo e o moldámos em função dos nossos desígnios. A distinção entre sociedade e natureza nunca foi tão insubsistente. Serve apenas a vontade daqueles que procuram naturalizar o calculismo da sua acção perante a catástrofe, «a crise que aí vem», os as respostas draconianas e desproporcionais que vêm embrulhadas no manto da «emergência». Se esta é uma guerra, lembremo-nos que não há guerras em que seja impossível distinguir entre o amigo e o inimigo. Não entreguemos a nossa vontade a quem faz da catástrofe uma fatalidade para se eximir da responsabilidade das suas decisões. É esse o inimigo. E, enquanto o seu mundo acaba, há outros mundos por fazer. Não nos resta só o frio. Ainda.”



No fim era o frio - Diogo Duarte no Mapa nº27 Maio/Julho 2020





A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:

"Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta..."

Vês como é simples e linda?



(O resto conto depois;
mas tão a sós, tão de manso

que só escutemos os dois).

Madrigal - Sebastião da Gama



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