সোনার তরী



Parece-me que te amei de inúmeras maneiras, inúmeras vezes,
Na vida após vida, em eras após eras eternamente.
O meu coração enfeitiçado fez e voltou a fazer o colar das canções
Que tomaste como uma prenda, usando-o à volta do pescoço de tantas e tantas formas,
Na vida após vida, em eras após eras eternamente.



Sempre que oiço as antigas crónicas do amor, a sua antiga dor,
O seu antigo conto de estar só ou acompanhado,
Quando contemplo o passado, no fim tu apareces
Vestida com a luz da Estrela Polar que trespassa a escuridão do tempo:
Tornas-te uma imagem do que é recordado sempre.



Tu e eu flutuámos aqui na corrente que traz da nascente
Para o coração do tempo o amor de um pelo outro.
Representámos lado a lado milhões de amantes, partilhando
A mesma tímida doçura do encontro, as mesmas amarguradas lágrimas do adeus —
Antigo amor, mas renovando-se sempre e renovando-se sempre.



Hoje ele acumulou-se aos teus pés, encontrando o seu fim em ti,
O amor de todos os dias, de todos os homens, do passado e de sempre:
Universal alegria, universal mágoa, universal vida,
As recordações de todos os amores surgindo com este nosso amor —
E as canções de todos os poetas do passado e de sempre.

Interminável Amor

In “Poesia”, tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 2.ª ed., 2011, p. 19





Aquele que é bom, chega ao portão,
aquele que ama, passa o portão.

O amor continua a ser um segredo
mesmo quando se fala dele,
pois só o verdadeiro amante sabe que é amado.

Que o meu amor não seja um fardo para ti, meu amigo;
repara que ele se paga a si próprio!

Pago-te, com amor, a minha infinita dívida
por aquilo que és!


in "A Asa e a Luz", Assírio & Alvim, 2016



Rabindranath Tagore

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